SABIA QUE… Os Portugueses fazem parte da história do papel, no passado recente?
Quando falamos de papel e na sua qualidade, os principais critérios são: a resistência; durabilidade; textura e brancura (se o uso for a escrita). O fator preponderante para estas características é o comprimento da fibra - quanto mais longa, mais estas se interligam entre si e a folha ganha resistência. O comprimento da fibra depende da conjugação de duas variáveis: o processo de obtenção da pasta e espécie de árvore utilizada...
São várias as espécies de madeira utilizadas pela indústria papeleira (abeto, bétula, choupo, eucalipto, faia, pinheiro, vidoeiro, entre outras). Cada uma com características morfológicas diferentes e consequentemente o comprimento da fibra também deferente.
Foquemo-nos nas duas matérias primas mais utilizadas na indústria papeleira nacional...o pinheiro e o eucalipto. Tendo o pinheiro uma fibra muito mais longa que o eucalipto, seria (à partida) uma matéria prima melhor. Contudo, o mesmo demora o dobro do tempo a crescer, tornando-se numa madeira mais cara e, por isso, o produto final perde performance pelo preço.
A partir do final do século passado, a utilização de papel usado na produção de pasta passou a ser uma nova realidade. Mas, mais uma vez, esbarramos com o comprimento da fibra. Cada vez que o papel é reciclado as fibras partem-se, ficando o produto final mais frágil. No limite o papel pode ser reutilizado até cinco vezes se, ao processo, for adicionada também fibra virgem.
Mas para entender melhor a história recente do papel, temos que recuar ao século XIX, quando o papel ainda era produzido a partir de trapo reciclado. A escassez de algodão ditou o aumento do preço, obrigando à procura de um substituto viável para a produção industrial de papel.
Depois de muito trabalho e experiências mal sucedidas, curiosamente, a nova descoberta trilhou os mesmos caminhos de há dois mil anos na China, quando Tsai Luan produziu a primeira folha de papel (na altura inspirado nas vespas e nos seus casulos, criados a partir de alguns caules de árvores).
Do ponto de vista macromolecular, a madeira tem como composto estrutural a celulose, a poliose e por último a lignina (esta funciona como um cimento orgânico que une as fibras). Quando se consegue separar esses componentes, diz-se que a madeira foi deslenhada, o material resultante depois de lavado e escorrido é essencialmente a celulose, ao qual é dado o nome de pasta de celulose.
A epopeia de conseguir o melhor processo ficou para a história em 1840, quando na Alemanha, se desenvolveu um processo para a trituração de madeira. As fibras foram separadas e transformadas no que passou a ser conhecido como “pasta mecânica” de celulose.
Já em 1854, é patenteado na Inglaterra um processo de produção de pasta celulósica através de tratamento com soda cáustica (que dissolve a lignina), surgindo a primeira “pasta química”.
O cozimento de soda foi imediatamente substituído pelo processo de sulfito, patenteado em 1867, por causa da celulose sulfito ser mais clara, mais fácil de refinar e mais simples de produzir do que a pasta de soda.
Em seguida, o químico alemão Dahl desenvolveu o processo por sulfato, em 1879, ao qual deu o nome de Kraft - que significa forte em alemão (uma alusão às fibras não se deteriorarem e resultar uma pasta com características muito resistentes). Além disso, as vantagens eram inúmeras como permitir cozer “qualquer” tipo de madeira; a velocidade de deslenhificação ser elevada; permitir a recuperação eficiente de químicos e a recuperação de subprodutos.
No entanto, a complexidade do processo, o custo inicial do equipamento e o facto da pasta ser muito escura, mais difícil de refinar e de branquear, fez com que até há década de 1930, a produção de pasta de sulfito tenha sido o método de cozimento líder.
A partir da década de 1950, o mercado papeleiro torna-se profundamente competitivo ao nível internacional, quer em relação à qualidade, quer ao preço. Também é neste período que se dão os primeiros passos, efetivos, nas exigências da melhoria dos desempenhos, com fins ambientais. Era importante inovar, mas otimizar passou a ser imprescindível para sobreviver.
É neste contexto que em 1957 Portugal lança a primeira pasta química (pelo processo de sulfatos), a nível mundial, obtida a partir de eucalipto. Depois de, em 1923, também os portugueses terem produzido a pasta de eucalipto mas pelo processo de sulfito. Assim a indústria nacional Portuguesa, com esta inovação, ficou na história a nível internacional, neste mercado maduro e ferozmente concorrencial.
Convém lembrar que o eucalipto tinha sido introduzido em Portugal, como planta florestal, por volta de 1830. No entanto a sua madeira nunca teve muita procura para a carpintaria. Consequentemente o seu valor de mercado era baixo e a oferta era imensa. Com esta inovação o eucalipto torna-se numa matéria prima apetecível para a indústria papeleira embora, como já foi referido acima, a sua celulose não tenha as melhores características.
Para finalizar, é curioso refletirmos como Portugal, na década de 50, inovou ao nível tecnológico na indústria papeleira... quando no mesmo Portugal coabitavam fábricas de papel arcaicas a utilizar trapos como matéria prima!