Sabia que… os crimes contra crianças continuam a desafiar a justiça portuguesa?

12-06-2026 16:07 | 4 horas atrás
Quando falamos de crimes contra crianças, falamos de uma das formas mais graves de violação dos direitos humanos. No entanto, apesar dos avanços legislativos das últimas décadas, Portugal continua a enfrentar desafios significativos na prevenção, deteção e resposta a estes crimes.

Os números mostram uma realidade que não pode ser ignorada. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) revela que a delinquência juvenil aumentou 12,5% em 2024, registando 2.062 ocorrências, enquanto os ilícitos praticados em contexto escolar cresceram 6,8%. Paralelamente, os crimes sexuais continuam a preocupar as autoridades, tendo os casos de violação aumentado quase 10% face ao ano anterior. Estes dados recordam-nos que a violência que afeta crianças e jovens permanece uma questão estrutural e não apenas um conjunto de casos isolados.

Mas os números conhecidos representam apenas uma parte da realidade. Diversos estudos internacionais demonstram que os crimes contra crianças, especialmente os abusos sexuais, estão entre os mais subnotificados. O medo, a dependência emocional em relação ao agressor, a vergonha e a dificuldade em encontrar adultos capazes de acreditar e agir contribuem para que muitas vítimas permaneçam em silêncio durante anos.

A forma como os sistemas de justiça respondem a estas situações tem sido alvo de análise por organizações internacionais. O Comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas tem vindo a recomendar a Portugal o reforço dos mecanismos de proteção, a redução da revitimização das crianças durante os processos judiciais e a garantia de respostas mais céleres e centradas no superior interesse da criança. Também organismos do Conselho da Europa têm alertado para a necessidade de melhorar a identificação e proteção de crianças vítimas de diferentes formas de violência e exploração.

Uma das principais preocupações apontadas internacionalmente prende-se com o facto de muitas crianças terem de repetir várias vezes os seus relatos perante diferentes entidades, revivendo experiências traumáticas. Embora existam mecanismos como as declarações para memória futura e equipas especializadas, especialistas e organizações de defesa dos direitos das crianças continuam a defender uma maior articulação entre justiça, saúde, educação e proteção social.

A avaliação internacional da justiça portuguesa não é exclusivamente negativa. Portugal é frequentemente reconhecido por possuir um quadro legal moderno e por ter desenvolvido estruturas especializadas de apoio às vítimas. Contudo, as organizações internacionais sublinham que a eficácia da proteção não depende apenas das leis existentes, mas sobretudo da rapidez da intervenção, da formação dos profissionais e da capacidade de colocar a criança no centro de todo o processo.

Proteger uma criança vítima de crime não significa apenas investigar e punir o agressor. Significa garantir que a criança é ouvida com respeito, acreditada, protegida e acompanhada na reconstrução da sua vida. Porque, quando uma sociedade falha na proteção das suas crianças, falha também no seu próprio futuro.

Fontes:
¹ Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) 2024.
² Dados divulgados pelo Sistema de Segurança Interna e meios de comunicação nacionais em março de 2025.
³ Recomendações do Comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas e relatórios do Conselho da Europa sobre proteção de crianças vítimas de violência e exploração.
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