Na infância, o desenvolvimento emocional e relacional segue ritmos próprios. No entanto, é cada vez mais frequente ouvirmos adultos dizerem, em tom de brincadeira, que determinada criança “já tem namorada” ou “vai partir muitos corações”. Embora muitas vezes estas expressões sejam vistas como inofensivas, a psicologia do desenvolvimento alerta para a importância de respeitar as etapas naturais do crescimento infantil.
De acordo com Jean Piaget, a infância é marcada por fases cognitivas em que o pensamento simbólico e a compreensão das relações evoluem progressivamente. Já Erik Erikson descreve que, nas primeiras etapas da vida, as tarefas centrais da criança passam pela construção da autonomia, da iniciativa e da competência — não pela vivência de relações românticas. A sexualização precoce ou a atribuição de papéis afetivo-românticos pode gerar confusão emocional e antecipar expectativas que não correspondem ao seu estádio de maturidade.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) tem sublinhado a importância de proteger a infância de pressões sociais e de estereótipos de género que condicionam o desenvolvimento saudável. Associar desde cedo crianças a dinâmicas de namoro pode reforçar ideias rígidas sobre papéis masculinos e femininos, bem como normalizar a ideia de que a validação afetiva depende de uma relação romântica.
A Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas (1989), ratificada por Portugal, estabelece no seu artigo 19.º o direito da criança à proteção contra todas as formas de violência física ou mental, incluindo práticas que possam comprometer o seu bem-estar psicológico. Embora comentários aparentemente leves não configurem, por si só, violência, importa refletir sobre o impacto cumulativo de mensagens que pressionam ou expõem a criança a expectativas inadequadas à sua idade.
Especialistas em psicologia infantil alertam ainda para o fenómeno da adultização precoce — quando se atribuem às crianças responsabilidades, preocupações ou papéis próprios de adultos. Segundo a psicóloga norte-americana Lisa Damour, autora na área do desenvolvimento adolescente, a antecipação de dinâmicas românticas pode interferir na construção da identidade e na vivência saudável das amizades, que são fundamentais nesta fase.
Na prática, o que significa dizer que “as crianças não namoram”? Significa reconhecer que, na infância, as relações são sobretudo de amizade, de descoberta social e de aprendizagem de competências como a empatia, a partilha e a resolução de conflitos. É nesta base que, mais tarde, se poderão construir relações afetivas maduras e respeitadoras.
Enquanto adultos — pais, familiares, educadores ou comunidade — temos a responsabilidade de proteger a infância de pressões desnecessárias. Em vez de reforçar a ideia de “namoricos”, podemos valorizar as amizades, incentivar o respeito pelo corpo e pelas emoções e promover uma educação para a igualdade e para o consentimento adequada à idade.
Proteger a infância é também isto: permitir que as crianças sejam simplesmente crianças. Fontes:
• Piaget, J. (1952). The Origins of Intelligence in Children.
• Erikson, E. (1963). Childhood and Society.
• Convenção sobre os Direitos da Criança, Nações Unidas (1989).
• Ordem dos Psicólogos Portugueses – Recomendações sobre desenvolvimento infantil e igualdade de género.
• Damour, L. (2016). Untangled: Guiding Teenage Girls Through the Seven Transitions into Adulthood.
______________________
Partilhado em:
#
instagram.com/gabineteatendimentofamilia #
facebook.com/gabineteatendimentofamilia