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Sabia que… A noção de dimorfismo sexual ...

30-08-2019 09:21



Sabia que… A noção de dimorfismo sexual traduz a ideia de diferença física entre homem e mulher, sendo muito glosada como critério de distinção/oposição entre o género feminino e masculino?

Contudo, hoje, para diversos autores, esta divisão/separação não é tão categórica, tende a perder sustentação científica visto que, conforme refere Johanna Schouten , “ as dicotomias não são tão absolutas: certos indivíduos, os chamados intersexuais, ou hermafroditas, nascem com traços biológicos de ambos os sexos e o padrão cromossómico pode não corresponder nem a XX nem a XXY”. A autora reforça a tese de que há outros marcadores de sexo, como as funções gonodais e reprodutoras e que as caraterísticas anatómicas e fisiológicas podem mudar no decurso do ciclo vital da pessoa.

Neste sentido, se considerarmos que o dimorfismo sexual não reside apenas na dimensão biológica do indivíduo, menos consensual se torna pensar em leituras unívocas quando passamos para a dimensão social e comportamental. A referida investigadora cita vários autores que nas suas análises de trabalho de campo observaram sociedades humanas onde se identifica uma terceira categoria de género.

São exemplos, algumas tribos ameríndias, onde os berdaches ou two-spirit “são biologicamente homens, mas adoptam as actividades, o vestuário e o modo de ser e estar das mulheres”; no Sudeste Asiático, refere que em algumas línguas nativas, não há termos diferentes para irmãos e irmãs e o estatuto social sobrepõe-se à distinção sexual homem/mulher; em África, citando Leonard Andaya, “já o português, António de Paiva, descreveu os membros da tribo bissu, os chamados “sacerdotes do rei” indivíduos biologicamente masculinos que adoptavam aspectos do traje e outros hábitos comuns das mulheres e que tinham homens como parceiros sexuais e matrimoniais”.

Na Europa, destaca o exemplo das sworn virgins na Albânia, região das Balcãs, de acentuado patriarquismo e violência, onde na falta de um homem no seio da família, uma rapariga é socializada como rapaz, adoptando um vocabulário, um estilo de vida e um cross-dressing (roupa, acessórios) tipicamente masculino, cabendo-lhe o papel de defensor da honra da família, estando-lhe, contudo, vedado os relacionamentos sexuais.

Assim, e em forma de conclusão, podemos afirmar que nem sempre encontramos linearidade quando refletimos sobre a problemática da relação sexo-género porque ela não se esgota na dimensão biológica mas incorpora fatores de ordem social e cultural. Daí que, Johanna Schouten dê voz a autores que, embora situados em diferentes posições epistemológicas, consideram que a definição dos sexos são produtos sociais, derivados em parte das taxonomias nas ciências médicas e biológicas e em parte das normas correntes na sociedade.

In “Uma Sociologia do Género”, Schouten, Maria Johanna, edições Húmus, Universidade do Minho, 2011. 2 Imagem extraída da obra supra referida.
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José Miguelote C. Monteiro
GAF, Sabia Que, Agosto, 2019

Etiquetas: 2019Sabia Que

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