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Perspetivas & Reflexões • COVID e a Família • Por Marta Vieito

29-05-2020 15:47



Enquanto colaboradora desta instituição, num serviço que acompanha famílias diariamente vi, ouvi, imaginei um conjunto de realidades familiares e senti um conjunto de emoções que me foram partilhadas que me obrigaram a repensar no conceito Família…

O ano 2020 obrigou-nos a parar e a refletir sobre o ser e viver, também em família. A Pandemia obrigou-nos a fecharmo-nos nas nossas casas com as nossas famílias, deixamos do lado de fora o “perigo-vírus-bicho-mau”, mas também muitos dos nossos fatores protetores – diria até escapes à família - como as escolas, os trabalhos, os amigos, as atividades sociais, culturais e desportivas sentimo-nos “obrigados” - alguns com mais consciência, outros nem tanto - a viver para a Família!

E foi engraçado ver o que aconteceu… Muitos aproveitaram para fazer coisas que já não sabiam fazer, em família, como cozinhar o pão, ou o bolinho; voltar a plantar e a cultivar quintais; ou simplesmente estar juntos no sofá a ver um filme! Outros (re)descobriram características nos filh@s e/ou companheir@s que já não se recordavam, pois a azafama do dia-a-dia fez-nos isso, não ter tempo para a família! Voltou-se a cortar cabelos com moldes de tigelas, fizeram-se arranjos de costura, arrumaram-se arrecadações, descobriram-se tesouros familiares: uma carta de amor, uma fotografia! Voltamos ao ensino doméstico e até à telescola e o papel de educador formal passou também a ser o dos pais, estes que hoje tipicamente tanto descartam essa responsabilidade para a escola. Passamos horas ao telefone com os avós, ensinando-lhes como fazer uma videoconferência; telefonamos ao tio/prima de Lisboa, com quem já não falávamos há 5 anos… sentimos saudades, principalmente quando alguém soprava velas…

Mas nem tudo foi/é um mar de rosas, aborrecemo-nos por 1001 coisas que desejaríamos estar a fazer e não estamos – aqueles tais escapes -, fartamo-nos dos seres-vivos com que partilhamos x m² (sentindo um misto de raiva e culpa) pois descobrimos-lhes características que desconhecíamos e que provavelmente até são nossa herança, como a teimosia!, juramos que nunca mais iríamos “falar mal dos professores, que afinal são santos!”, suplicamos que o vírus desaparecesse e que voltasse tudo ao “normal”… fugimos para os recantos das nossas casas para estarmos 5 minutos sozinhos e respirar fundo… às vezes também perdemos a paciência e gritamos e esperneamos…

A questão que agora, em época de desconfinamento, se impõe é a seguinte: que tipo de família quero ser daqui em diante? as hipóteses mais prováveis são: quero voltar ao “normal-pré-covid” ou quero aprender com esta experiência e reconstruir “uma nova forma de ser e estar em família”?

Teóricos apregoam que nada será como antes: a economia, o trabalho, a aprendizagem, as relações sociais, etc. mas focalizar a nossa atenção para esta célula da sociedade: a Família! Quanto tempo, por dia, vou, de hoje em diante, disponibilizar exclusivamente para a minha família? Que atividades vamos fazer em conjunto? Que significado e presença irá ter a família alargada (os avós, os primos, que tantas saudades nos deixaram)? Que rotinas com a escola vou manter? Que nova relação vou estabelecer com o meu trabalho?

A minha avó costumava dizer “o que é preciso é saudinha”, nunca tinha percebido o verdadeiro sentido desta frase… pensemos esta crise que todos vivemos, este medo de ficar doentes, esta fuga para as nossas casas como uma oportunidade que tivemos de reconstruir o nosso sentido de Família! Falava-se em crise de valores, será que não está na hora de a “Família” ser o valor central das nossas famílias?

Perspetivas e Reflexões • COVID e a Família
Por Marta Vieito, Psicóloga do CAFAP do GABINETE DE ATENDIMENTO À FAMÍLIA (GAF)

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